Foi preciso viver sete anos num país que eu nunca tinha visitado antes, para começar a entender a minha humanidade.
E isto só foi possível, porque também perdi essa humanidade pelo caminho - como todo bom clichê.
Virei bicho aqui, essencialmente bicho.
Faz menos de uma semana me contaram que as ostras se enterram quando vão produzir suas pérolas.
Portugal foi meu buraco, e eu agradeço Portugal por isso.
Não fosse Portugal ser meu buraco, eu nunca teria sido capaz de encontrar a pérola que tenho em mim, e que sou.
Meu buraco porque me levou ao mais profundo do meu ser.
Enfrentei minhas sombras, aprendi a conviver com elas, e percebi que as sombras me pertencem, mas não são a pessoa que eu sou.
A pessoa que eu sou, é luz.
E poderia falar de todas as descobertas que fiz de mim mesma, mas a impermanência a que me proponho viver - e aqui atenção, não tem a ver com inconstância - materializa caminhos que não me são racionais.
Antes pelo contrário, Portugal virou do avesso tudo que eu tinha como razão. E portanto, também deixei de acreditar em verdades absolutas. O engraçado disso, é que também deixo espaço para voltar a acreditar nelas.
Também foi aqui que eu aprendi que eu sou você, e você sou eu.
Em função disso, decidi me cercar de pessoas que eu quero que sejam parte de mim. Aí então, também consolidei em mim a noção de família.
Família não são os outros que me cercam, sou eu mesma, onde todas as pessoas "você" - que eu escolho - habitam.
E por você me habitar, e estar aqui e agora no meu pensamento, sou capaz de seguir.
Portugal é agora um capítulo da minha vida.
Que venha o próximo.