E tenho certeza que é comum. Mas parece que faz tanto tempo... E se foram anos nisso tudo, nessa brincadeira de querer ser uma pessoa melhor. Sempre falo que no fundo é puro egoísmo. Mas ninguém entende assim, já que estou me dispondo ao outro. Ontem foi um dos momentos em que me senti igual a 3 anos atrás, mas não cheguei a lembrar. Hoje, agora, nesse momento, eu me lembro. E pra evitar de esquecer muito rápido, porque vou esquecer, escrevo.
Por que eu faço parte do TETO? Por que no meio da rotina maluca eu ainda acho duas ou três horas por dia para me dedicar à esse trabalho voluntário?
Quem sou eu? Ninguém, não preciso ser. Só quero estar ali, perto, vendo, ouvindo, aprendendo. E às vezes, falando aqui, mexendo ali. Fato é que em 2010 eu não fazia ideia para onde eu tava indo, e para ser bem sincera, ainda não sei. É o clássico clichê do não importa o destino, mas sim o percurso.
Mas ontem, ontem lá fui eu, me apertando, pedindo socorro para as pessoas, querendo chamar atenção de todo mundo, para ir à uma reunião que na verdade, nem eu sabia direito do que se tratava. Mas chegar de falar entrelinhas. Vamos aos fatos.
Em Março comecei a trabalhar como Coordenadora de Habilitação Social¹, junto com minha dupla². Na mesma comunidade que estávamos introduzindo esse trabalho, fui convidada para ser Chefe de Escola na Detecção Massiva de Julho³.
Recusei.
Porque eu trabalho.
Mas, sou ou não sou Coordenadora, também não trabalho aqui?
Aceitei. Não sabia onde estava me metendo. Ainda não sei.
Entre muito vai-e-vem, reuniões formais e informais, encontros e desencontros, chegamos ao último e derradeiro domingo dia 20, para aplicar Enquetes-Teste para nos preparar para o final de semana seguinte. Esse final de semana, de amanhã.
Tudo certo e caminhando. Realizamos as enquetes, após a aplicação fizemos uma reunião com os moradores e uma agente externa da ONG Amora⁴ para validar os trabalhos da Detecção Massiva. A reunião se acalorou, os moradores se mostraram hesitantes em responder algumas questões (nome, número de documento...), uma vez que a comunidade passa por um processo de reintegração de posse.
No meio da discussão, eles falaram que seria necessário apresentar a Enquete ao advogado deles, que daria o aval para seguirmos com o trabalho.
Sério, e agora? Zilhares de capacitações, busco no fundo da mente o melhor caminho, mas nada institucional me vem. Mas confio, confio em mim, confio no trabalho do TETO, confio sem precedentes. Entrego a Enquete, com o acordo de que eu também iria à reunião com advogado.
Penso, fico tensa, sou Arquiteta não Advogada, meu conhecimento legislativo pífio pode não adiantar. Toda a mobilização será vã. Num movimento focado me agarro a outro voluntário interessado em ir à essa reunião, ele enquanto estudante de Direito, me ajudaria!⁵
Fomos.
Fui parar para lá de não sei aonde. Desculpa, pode não ser tão longe. Mas não sou de São Paulo. A caminho da reunião, pensava: eu, o voluntário, o advogado, o morador com a Enquete. Preciso explicar, preciso me fazer entender.
...
Cheguei ao local. Um público de cerca de 30 pessoas, todos lideranças comunitárias, de diversas comunidades. A Spama era mais uma. Mais uma que luta, que tenta, que vai atrás. Atrás de um pedaço de terra, atrás de uma dignidade. Enfim. Eles podem falar melhor pra você, mas só sei que estou junto com eles!
Começo a entender. A reunião se trata da Reunião de Ocupações. É uma rede de trabalhadores, essa é a da Zona Oeste Noroeste.
O advogado à frente, orienta os moradores, trabalha em conjunto. Mas prefiro não me ater à essa parte, tenho muito a entender ainda...
Fato é, somos convidados a explicar porque estamos lá. Respiro. Nem eu sei direito, fui achando que era uma coisa, cheguei era outra. Sou sincera, explico da Spama, explicamos do TETO. Falamos da Enquete, as lideranças se alvoroçam positivamente. Entendem nosso trabalho, nossa missão, nossos valores. E querem nosso contato, e querem nos ver novamente, querem que a gente visite as comunidades. Respiro tensa. Foco na missão da vez. Pergunto solenemente se o advogado libera os moradores da Spama para responderem à Enquete. Era essa resposta que eu precisava. Era essa resposta que a Detecção Massiva precisava.
O advogado conhece a ONG, entende o que fazemos, e diz que é válido. Dou um sorriso largo. Agradeço imensamente. Olho para lado, compartilho a felicidade. Trocamos contatos com os moradores. Nós voltaremos!
Mas continuo esquecida.
O trabalho continua, a rotina ainda suga, e tudo me vai corroendo.
Até que sou questionada do trabalho voluntário novamente. Volto às minhas recordações, ao meu saudoso julho de 2010, acesso minhas fotos, lembro de outros tantos moradores, de outros tanto sorrisos, das crianças, das dificuldades, das chuvas e dos sóis.
E se às vezes me esqueço, hoje me lembro o porque de estar aqui.
Eles não precisam de mim. Eu que preciso deles.
Por isso me desespero, me perco, corro, me aperto, pulo, sorrio e grito: COMEÇOU NÃO PÁRA!
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¹ Sobre Habilitação Social: http://www.techo.org/paises/brasil/informate/saiba-mais-informacoes-sobre-o-trabalho-de-habilitacao-social/
² Julia Polli, voluntária do TETO
³ Evento no Facebook sobre a Detecção Massiva: https://www.facebook.com/events/1508475609388852/?fref=ts
⁴ Aida, diretora da ONG Amora. Facebook da Amora: https://www.facebook.com/amorainclusaosocial?fref=ts
⁵ Lucas Mauro, voluntário do TETO
É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
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sexta-feira, 25 de julho de 2014
domingo, 31 de outubro de 2010
domingo, 3 de outubro de 2010
VAI CASA UM!
Não poderia deixar distanciar mais a escrita do fato. A data da construção! Sim! Construí novamente com a ong Um Teto Para Meu País. Foi uma experiência deveras diferente da primeira. A começar pelo fato de eu ter sido líder. Ou como preferi dizer: cheerleader (risos). Novamente conheci pessoas extraordinárias. E pretendo de verdade poder acumular isso de uma forma relevante. Essa oportunidade que tenho de crescer com pessoas que se tornam quase íntimas em um pequeno período. A família que para qual eu e minha equipe construímos me encantou. Não queria parar de abraçá-las. A dona da casa, Ana Lúcia, e sua irmã protetora, Ana Maria, são pessoas incríveis. Não ouso escrever o que conversei com as famílias, não por ora, e não sei o porquê. Acho que deixo para cada um a vontade de vivenciar essa experiência, e saber o que eles têm a dizer. Em termos de construção, foi bem fácil. Dessa vez não tenho como reclamar da logística ou dizer que eram poucos voluntários em minha equipe. Foi uma construção corporativa, o que me fez conhecer os funcionários da Prosegur. Não sei quanto aos outros, mas posso repetir uma coisa: VAI CASA UM! (risos). E garanto que isso já diz muito a poucos. Não vejo a hora de encontrar essas pessoas novamente. Cada um determinado de uma forma, encantador de uma forma. Eu e minha eterna mania de me apaixonar pelas pessoas, coisas e acontecimentos. Mas de fato minha equipe foi bastante acolhedora. E não poderia esquecer meu parceiro na liderança... Ele sim foi o líder, mas sinto que de algum jeito, demos muito certo juntos. Ainda não sei como é uma construção convencional do Teto, mas não tenho pressa. Foram dois dias excepcionais de construção. Mais ainda na entrega da casa, que (por incrível que pareça) me faltaram palavras. Ah! COMEÇOU NÃO PÁRA! Fato!
(VAI CASA UM!!!)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
E dá-lhe recomeços
Que felicidade esquisita. Me sinto MUITO feliz. Talvez a certeza de participar tão cedo de outra construção do Teto me dá uma alegria que não sei dimensionar. E não por mim, mas pelos outros. Novamente as famílias e os voluntários. Dá vontade de viver fazendo isso... E é fato que estou cheia de amor, animação, vontade, força, esperança e alegria para distribuir a quem os quiser. Mesmo tendo mil coisas pra fazer na faculdade, sei que no final tudo dará certo. É uma questão de escolha! Eu escolhi ser voluntária de corpo e alma! Que venha outro líder, outra equipe, outra família, outra construção. Não adianta... COMEÇOU NÃO PÁRA!!!!!!!!!!!
sábado, 31 de julho de 2010
Favela
Que eu vivi essa experiência, eu não posso negar. Ficaram em meu corpo as marcas desses cinco dias, ficaram em minha alma. Que eu me apaixonei fervorosamente por pessoas diversas, e agora elas me fazem uma falta que não sei como suprir, também não nego. E reconheço a dificuldade em largar minha cidade agora, por esta ser tão perto da cidade onde minhas atuais inspirações residem. Porque agora, enfim, encontrei inspirações. Porque agora, enfim, encontrei espelhos. Se um dia procurei ídolos, hoje os tenho, os conheço, e de algum jeito eles já fazem parte de mim, e talvez eu também faça um pouco parte deles. Não esperei, nenhum segundo sequer, reconhecimento. Acho, sinceramente, que pela primeira vez me dei por inteiro. E foi isso o notável. Lutei, literalmente, por uma causa. Lutei contra mim e com eles. Contra mim lutei nas dificuldades, nas quase-desistências, nas indecisões. Com eles lutei por uma casa, por um recomeço, por algo que não sei nomear. E se passado mais cinco dias, daqueles cinco dias, eu continuo gripada, é porque não saiu de mim, não saiu de meus pensamentos, tudo que aprendi, tudo que vi, tudo que senti. Desamparo é uma palavra que tomou forma. Somos uma sociedade desamparada. E não é preciso procurar na extrema pobreza esse desamparo. Basta olhar a lua, e ter certeza que é a mesma que ilumina, de forma igualmente esplendorosa, uma favela.
favela (é)s. f. 1.Bras. Conjunto de casebres toscos e miseráveis, geralmente em morros e onde habita gente pobre.2.Por ext. Lugar de má fama, sítio suspeito, frequentado por desordeiros.
Essa definição me parece vazia de sentido. Mas me sinto instigada o suficiente para assumir que desconheço uma definição mais apropriada. Talvez o que não faça sentido pra mim é "gente pobre". E isso me confunde. Porque sim, são pobres, mas não entendo, não concordo, não aceito. Em alguns aspectos, relevantes ou não, não sei, eles me parecem muito mais ricos do que eu. Porque querendo ou não, tudo que aprendi, foi me tomando como comparação. Me ensinaram valores, que moeda nenhuma compra, que nenhum outro valor que eu tinha, compensa. Então fui eu, a pobre, oferecendo minha vontade, para somar com a vontade restante deles, para juntos, lutarmos. Eu contra minha pobreza, eles contra a pobreza deles. Falta sentido também em "desordeiros". Aliás, isso carrega um preconceito que hoje me envergonho de antes ter me identificado. Que ordem há de se seguir numa "sociedade desamparada"? Que parâmetro uso para julgá-los (de longe) como desordeiros? Por que sempre caio da redundante hipocrisia? E quais são as indagações que posso me permitir fazer? E quais delas posso me permitir responder?
Às favas?Às velas?É ela,FAVELA.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Um teto para meu país
Nada mais me parece ter sentido, a não ser: CONSTRUIR, CONSTRUIR, CONSTRUIR. É alguma coisa, que eu não sei o que, que parece viciar. Os voluntários, as famílias, o mundo que conheci: tudo muito incrível, extraordinário e único. Essa tal ONG "Um Teto Para Meu País" é agora a parte mais intrínseca em mim. Num primeiro momento achei loucura aceitar passar 5 dias das minhas férias de julho de 2010, com pessoas desconhecidas, construindo casas para tantas outras pessoas também desconhecidas, sem tomar banho, numa favela. Mas então, aos poucos, todo preconceito foi se esvaindo. Toda a imagem implantada na minha cabeça, ruiu. É uma realidade muito pior do que parece. É uma realidade muito melhor do que parece. Assim mesmo, ambíguo. Isso porque existem necessidades mais extremas do que pensamos. Isso porque existem pessoas bem melhores do que pensamos. E dessas pessoas entenda-se voluntários e famílias. Ficamos todos juntos, vermelhos, laranjas, famílias, vizinhos, todos em prol de uma só meta: 100 casas. E se a viagem foi uma peleja, se a estrada foi estreita, tudo valeu a pena depois. Cada piloti, cada viga, cada caibro, cada tábua de piso, cada painel, cada viga mestre, cada viga secundária, cada caibro no teto, cada telha, cada cumeeira, cada prego, tudo valeu a pena, é fato. Se a mão doeu, se as costas doeram, se deu dor de cabeça, se a calça sujou, se a blusa rasgou, se perderam as luvas, se acabou o dorflex, se faltou água, se faltou boné, se fez calor de dia, se fez frio à noite, nada mais importa. Construímos tetos, reconstruímos vidas. Talvez se não fosse o terreno, talvez se não fosse a distância, talvez se não fosse o peso, talvez se não fosse a logística, talvez se não fosse o mundo, tudo teria sido mais fácil. Mais fácil? Qual a graça? O bom mesmo foi ter sido difícil, e ter sido muito mais difícil do que esperado. Porque desde o primeiro dia nos disseram a palavra chave dessa construção: SUPERAÇÃO. E quem não se superou, não esteve nesses cinco dias, ralando, sofrendo, trabalhando, chorando, gritando, amando. Porque é isso: VAMO TETO! É um grito que saiu da minha garganta tantas vezes, que mais nada agora sai dela. E pensar em segurar a lágrima na hora da inauguração das casas foi inútil, porque em contrapartida, todo trabalho para conseguir isso não o foi. E agora eu amo pessoas que convivi só cinco dias. Mas foram os cinco dias mais intensos e mais extensos que vivi. Foi de longe a melhor sensação. Força, vitória, união, superação, teto. Qualquer que seja a palavra. Fato que conquistamos cem tetos para meu país. Se alguém achou pouco, não tem o menor problema. Porque para todos os voluntários do Teto e para todas as famílias, agora é só um grito que nós podemos dar:
COMEÇOU NÃO PÁRA!
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