sábado, 31 de julho de 2010

Favela

Que eu vivi essa experiência, eu não posso negar. Ficaram em meu corpo as marcas desses cinco dias, ficaram em minha alma. Que eu me apaixonei fervorosamente por pessoas diversas, e agora elas me fazem uma falta que não sei como suprir, também não nego. E reconheço a dificuldade em largar minha cidade agora, por esta ser tão perto da cidade onde minhas atuais inspirações residem. Porque agora, enfim, encontrei inspirações. Porque agora, enfim, encontrei espelhos. Se um dia procurei ídolos, hoje os tenho, os conheço, e de algum jeito eles já fazem parte de mim, e talvez eu também faça um pouco parte deles. Não esperei, nenhum segundo sequer, reconhecimento. Acho, sinceramente, que pela primeira vez me dei por inteiro. E foi isso o notável. Lutei, literalmente, por uma causa. Lutei contra mim e com eles. Contra mim lutei nas dificuldades, nas quase-desistências, nas indecisões. Com eles lutei por uma casa, por um recomeço, por algo que não sei nomear. E se passado mais cinco dias, daqueles cinco dias, eu continuo gripada, é porque não saiu de mim, não saiu de meus pensamentos, tudo que aprendi, tudo que vi, tudo que senti. Desamparo é uma palavra que tomou forma. Somos uma sociedade desamparada. E não é preciso procurar na extrema pobreza esse desamparo. Basta olhar a lua, e ter certeza que é a mesma que ilumina, de forma igualmente esplendorosa, uma favela.

favela (é)
s. f.
1. Bras. Conjunto de casebres toscos e miseráveis, geralmente em morros e onde habita gente pobre.
2. Por ext. Lugar de má fama, sítio suspeito, frequentado por desordeiros.

Essa definição me parece vazia de sentido. Mas me sinto instigada o suficiente para assumir que desconheço uma definição mais apropriada. Talvez o que não faça sentido pra mim é "gente pobre". E isso me confunde. Porque sim, são pobres, mas não entendo, não concordo, não aceito. Em alguns aspectos, relevantes ou não, não sei, eles me parecem muito mais ricos do que eu. Porque querendo ou não, tudo que aprendi, foi me tomando como comparação. Me ensinaram valores, que moeda nenhuma compra, que nenhum outro valor que eu tinha, compensa. Então fui eu, a pobre, oferecendo minha vontade, para somar com a vontade restante deles, para juntos, lutarmos. Eu contra minha pobreza, eles contra a pobreza deles. Falta sentido também em "desordeiros". Aliás, isso carrega um preconceito que hoje me envergonho de antes ter me identificado. Que ordem há de se seguir numa "sociedade desamparada"? Que parâmetro uso para julgá-los (de longe) como desordeiros? Por que sempre caio da redundante hipocrisia? E quais são as indagações que posso me permitir fazer? E quais delas posso me permitir responder?

Às favas?
Às velas?
É ela,
FAVELA.

Um comentário:

Natália das Luzes disse...

você não faz mais parte das pessoas cheias de redundante hipocrisia, daquelas que falam 'é preciso ajudar os pobres' e ficam orgulhosas de darem moedinas no sinal.

a gente sabe que favela não é isso, e quem ganha somos nós!

(que vontade de bater nas casas que construímos e dizer 'oi, posso dormir aqui?')

é uma pena morar longe e não poder fazer parte disso o tempo todo. mas a gente faz o que podemos, né? - e nos superamos cada vez mais!

=*