quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Sete anos de Portugal

 Foi preciso viver sete anos num país que eu nunca tinha visitado antes, para começar a entender a minha humanidade.

E isto só foi possível, porque também perdi essa humanidade pelo caminho - como todo bom clichê.


Virei bicho aqui, essencialmente bicho.


Faz menos de uma semana me contaram que as ostras se enterram quando vão produzir suas pérolas.


Portugal foi meu buraco, e eu agradeço Portugal por isso.

Não fosse Portugal ser meu buraco, eu nunca teria sido capaz de encontrar a pérola que tenho em mim, e que sou.


Meu buraco porque me levou ao mais profundo do meu ser.

Enfrentei minhas sombras, aprendi a conviver com elas, e percebi que as sombras me pertencem, mas não são a pessoa que eu sou.


A pessoa que eu sou, é luz.


E poderia falar de todas as descobertas que fiz de mim mesma, mas a impermanência a que me proponho viver - e aqui atenção, não tem a ver com inconstância - materializa caminhos que não me são racionais.


Antes pelo contrário, Portugal virou do avesso tudo que eu tinha como razão. E portanto, também deixei de acreditar em verdades absolutas. O engraçado disso, é que também deixo espaço para voltar a acreditar nelas.


Também foi aqui que eu aprendi que eu sou você, e você sou eu.

Em função disso, decidi me cercar de pessoas que eu quero que sejam parte de mim. Aí então, também consolidei em mim a noção de família.

Família não são os outros que me cercam, sou eu mesma, onde todas as pessoas "você" - que eu escolho - habitam.


E por você me habitar, e estar aqui e agora no meu pensamento, sou capaz de seguir. 


Portugal é agora um capítulo da minha vida.


Que venha o próximo.