É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Discurso de Formatura 3º Ano COC SANTOS 2008
"Trabalhadores do Brasil! Às vezes achamos que a vida seria bem mais fácil se ela simplesmente fosse de qualquer outro jeito que não o jeito que ela é. Mas é um jeito que não temos idéia de qual seja... Agora pensando que é, o colégio acabou. Talvez fosse mais fácil se não tivesse acabado. O que será do ano que vem que não vamos pensar em arrumar o uniforme, ou poder usar a blusa do colégio sempre que tivermos preguiça de escolher a roupa de manhã? O que serão das nossas amizades que vão perder a intensidade pela simples distância que se colocará entre nós e nossos amigos? O que serão das tensões pré-prova com um monte de matéria não estudada? O que será da geografia? Da química? Da biologia? As outras, pessoalmente, ainda me acompanharão... Mas o que será da literatura se não formos atrás dela? Acho que é isso. Agora as coisas vão realmente passar a depender das nossas vontades em aprendê-las. E apesar de toda reclamação, não foi tão ruim ler textos enormes sobre o Romantismo, ou sobre conflitos no Japão, sobre os movimentos vegetais ou genética. Nem achei tão ruim ter que ver matriz, aprender relações de Girard, saber que atrás do espelho não tem nada, a não ser o menino do espelho. Fiquei impressionada com a carta de Getúlio que dizia: Saio da vida para entrar na história. E achei até divertido aprender química com a famosa constante universal Rubsky. Bom, foram onze anos prestando contas por prestar. Agora eu prestarei vestibular, prestarei contas ao meu curso. Vou poder me reinventar. Mas o nó na garganta por ter concluído um ciclo sempre vai me fazer prender a respiração quando uma nostalgia se fizer mais presente numa noite passada em claro fazendo algum trabalho da faculdade. O ciclo de estudo não se concluiu, mas as recuperações não existem mais. Os tarefões não existirão. Os professores não vão se interessar por nossos nomes, nem por de onde somos. Daqui pra frente, somos apenas nós, alguns amigos passageiros, e uma enorme ambição. Mas uma coisa há de se instalar dentro de todos que estão aqui: saudade. E não acho que devamos nos privar disso. Muitos achávamos que essa hora nunca chegaria. A hora de dizer: acabamos o colégio. Mas ela chegou, e tudo isso fará muita falta. Vamos sentir falta dos amigos de sala, da convivência, dos intervalos, das brigas pela quadra, das caras amassadas pós-aula, do stress de trabalhos interdisciplinares, dos professores que sabem quem nós somos, das idas à diretoria por falta de lição, conversa ou as clássicas "injustiças", e principalmente das coisas que ainda não temos certeza se farão falta ou não, até o momento em que não as tivermos mais. Não somos mais os alunos que os professores conheceram pequenininhos, insuportáveis e que jogavam queimada na aula de educação física. Mas pra falar a verdade. É agora que parece que não sabemos quem somos. É como se estivéssemos no limbo. Onde o passado não nos pertence, o futuro não nos é correto, e o presente passa como um vendaval. Eu ainda me sinto no comecinho do ano, não pelo cansaço. Mas não vi tudo o que passou. Quando penso que faz pouco tempo que alguma coisa aconteceu, logo mais se passaram três anos. Por que quem aqui ainda não lembra das festas de 15 anos no primeiro ano? O tempo, o espaço e a intensidade com a qual as coisas ocorreram, já não fazem tanto sentido. Amigos, amores, ambições, sonhos. Todos tão incertos, tão fugazes. Tão necessários. O que importa é irmos atrás de todos eles, pois é agora que temos a sensação de sermos capazes de mudar o mundo, e deixar pra trás essa cidade que reflete a nossa infância. Mas quantos de nós seremos realmente capazes de começar do zero? Enfim, que Charles Baudelaire permita a minha adaptação. Mas é hora de embriagarmo-nos! Para não sermos os escravos martirizados do tempo, embriaguemo-nos; embriaguemo-nos sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher."
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