quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Sete anos de Portugal

 Foi preciso viver sete anos num país que eu nunca tinha visitado antes, para começar a entender a minha humanidade.

E isto só foi possível, porque também perdi essa humanidade pelo caminho - como todo bom clichê.


Virei bicho aqui, essencialmente bicho.


Faz menos de uma semana me contaram que as ostras se enterram quando vão produzir suas pérolas.


Portugal foi meu buraco, e eu agradeço Portugal por isso.

Não fosse Portugal ser meu buraco, eu nunca teria sido capaz de encontrar a pérola que tenho em mim, e que sou.


Meu buraco porque me levou ao mais profundo do meu ser.

Enfrentei minhas sombras, aprendi a conviver com elas, e percebi que as sombras me pertencem, mas não são a pessoa que eu sou.


A pessoa que eu sou, é luz.


E poderia falar de todas as descobertas que fiz de mim mesma, mas a impermanência a que me proponho viver - e aqui atenção, não tem a ver com inconstância - materializa caminhos que não me são racionais.


Antes pelo contrário, Portugal virou do avesso tudo que eu tinha como razão. E portanto, também deixei de acreditar em verdades absolutas. O engraçado disso, é que também deixo espaço para voltar a acreditar nelas.


Também foi aqui que eu aprendi que eu sou você, e você sou eu.

Em função disso, decidi me cercar de pessoas que eu quero que sejam parte de mim. Aí então, também consolidei em mim a noção de família.

Família não são os outros que me cercam, sou eu mesma, onde todas as pessoas "você" - que eu escolho - habitam.


E por você me habitar, e estar aqui e agora no meu pensamento, sou capaz de seguir. 


Portugal é agora um capítulo da minha vida.


Que venha o próximo.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sobre março de 2017

Às vezes a gente sente que tudo nosso é meio quebrado. 
Que todas as nossas conquistas não são por inteiro.
Que todos os nossos méritos talvez não sejam assim tão honrados.

Tenho medo de não viver e desfrutar no seu melhor os louros das minhas realizações. 

Somos sempre em alguma parte,  mesmo que profunda e quase escondida de nós, vaidosos.

E ponho no plural por saber que não estou só, nem na vaidade e, principalmente, nem no egoísmo. 

Nós, seres quase iluminados, que enxergamos nossas capacidades e extraímos delas nosso melhor e por vezes nosso pior - por vontade própria - nos iludimos com a perfeita sintonia e passividade com que aparentemente segue a vida alheia.

Nós, seres quase iluminados, tentamos não olhar para o lado, não cobiçar a grama alheia e principalmente não lamentar os próprios erros.

E convencemos bem, convencemo-nos - e outros - que o sol ainda brilhará na manhã seguinte.

A parte mais irônica disso tudo é quando nos libertamos da vergonha e assumimos essa nossa libertinagem pseudo maquiavélica e somos ainda, quase que iluminadamente, chamados de seres humanos.

Risos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Eu não fui pra longe

Eu não fui pra longe
Fui pra mais perto de mim

Saí do lado dos outros pra me ouvir um pouco,
Ouvir as minhas preces

Posso parecer egoísta
Mas meu corpo, minha alma
Sentiam falta do meu cuidado,
Da minha atenção

Todo mundo sempre falou de independência
Enquanto eu sentia na pele só o peso da insatisfação

Cigana, bruxa, ...
Tanto faz agora que voltei pra casa

Hoje fiz minha comida
Hoje lavei minha roupa
Hoje cortei minhas unhas

As pessoas já fazem isso, eu sei

Mas eu hoje fiz com prazer
Aquele prazer simples
Que quase parece sem compromisso
Mas que sela minha melhor relação

Aquela entre mim e eu mesma

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Eu sou o suficiente

Pode até ser que eu seja
Mas não estou sendo no momento

O problema não é eu tentar te esquecer
O problema é eu nunca parar de lembrar de você

Vai fazer um ano

Mas o que é um ano em três, ou quatro, te amando?

Faz um mês que eu jurei pra mim mesma que tinha te tirado da minha vida de uma vez por todas.
Eu estava viajando, em todos os sentidos. E no momento me pareceu a coisa mais sensata.
E realmente deu certo.

Por quatro semanas. Como transformo isso em quatro anos? Ou como faço compensar?

E amor lá se compensa? Sinceramente, não sei. Nunca passei por isso.

E hoje eu preciso falar de você como se ainda existisse somente eu e você
No quarto
Ouvindo Bob Marley
E transando
E gozando
E rindo
E se amando

Ou eu te levando na minha biz
Ou você me levando na sua twister

Nenhuma das duas existe mais
A gente não existe mais

Mas será que EU acredito nisso?
Estou começando a ter dúvidas. E acho que agora já não está mais ao meu alcance.

Já tentei falar que te amo, já tentei falar que te odeio mas em todas as vezes você foi o mesmo de sempre. Aquele que pouco fala e tudo sente, me deixando confusa.

Sinto muito se não consegui me cuidar, como você me falou inúmeras vezes.
A questão é que agora eu tenho quem cuide de mim. E por ele saber fazer isso tão bem, também quero saber cuidar dele.

Mas será que EU acredito nisso?

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Julgue-me

E se antes eu pedi
Ame-me

Hoje afirmo
Julgue-me

Julgue-me porque é nisso que me apoio
Onde cravo o meu ódio imaturo
E cresço

Julgue-me porque eu te julgo!
Sem precedentes

Se você não deve nada à ninguém
Eu devo a mim mesma e carrego este como meu maior fardo

Por fim
Julgue-me

Às vezes me esqueço...

E tenho certeza que é comum. Mas parece que faz tanto tempo... E se foram anos nisso tudo, nessa brincadeira de querer ser uma pessoa melhor. Sempre falo que no fundo é puro egoísmo. Mas ninguém entende assim, já que estou me dispondo ao outro. Ontem foi um dos momentos em que me senti igual a 3 anos atrás, mas não cheguei a lembrar. Hoje, agora, nesse momento, eu me lembro. E pra evitar de esquecer muito rápido, porque vou esquecer, escrevo.

Por que eu faço parte do TETO? Por que no meio da rotina maluca eu ainda acho duas ou três horas por dia para me dedicar à esse trabalho voluntário?

Quem sou eu? Ninguém, não preciso ser. Só quero estar ali, perto, vendo, ouvindo, aprendendo. E às vezes, falando aqui, mexendo ali. Fato é que em 2010 eu não fazia ideia para onde eu tava indo, e para ser bem sincera, ainda não sei. É o clássico clichê do não importa o destino, mas sim o percurso.

Mas ontem, ontem lá fui eu, me apertando, pedindo socorro para as pessoas, querendo chamar atenção de todo mundo, para ir à uma reunião que na verdade, nem eu sabia direito do que se tratava. Mas chegar de falar entrelinhas. Vamos aos fatos.

Em Março comecei a trabalhar como Coordenadora de Habilitação Social¹, junto com minha dupla². Na mesma comunidade que estávamos introduzindo esse trabalho, fui convidada para ser Chefe de Escola na Detecção Massiva de Julho³.
Recusei.

Porque eu trabalho.

Mas, sou ou não sou Coordenadora, também não trabalho aqui?

Aceitei. Não sabia onde estava me metendo. Ainda não sei.

Entre muito vai-e-vem, reuniões formais e informais, encontros e desencontros, chegamos ao último e derradeiro domingo dia 20, para aplicar Enquetes-Teste para nos preparar para o final de semana seguinte. Esse final de semana, de amanhã.
Tudo certo e caminhando. Realizamos as enquetes, após a aplicação  fizemos uma reunião com os moradores e uma agente externa da ONG Amora⁴ para validar os trabalhos da Detecção Massiva. A reunião se acalorou, os moradores se mostraram hesitantes em responder algumas questões (nome, número de documento...), uma vez que a comunidade passa por um processo de reintegração de posse.
No meio da discussão, eles falaram que seria necessário apresentar a Enquete ao advogado deles, que daria o aval para seguirmos com o trabalho.

Sério, e agora? Zilhares de capacitações, busco no fundo da mente o melhor caminho, mas nada institucional me vem. Mas confio, confio em mim, confio no trabalho do TETO, confio sem precedentes. Entrego a Enquete, com o acordo de que eu também iria à reunião com advogado.

Penso, fico tensa, sou Arquiteta não Advogada, meu conhecimento legislativo pífio pode não adiantar. Toda a mobilização será vã. Num movimento focado me agarro a outro voluntário interessado em ir à essa reunião, ele enquanto estudante de Direito, me ajudaria!

Fomos.

Fui parar para lá de não sei aonde. Desculpa, pode não ser tão longe. Mas não sou de São Paulo. A caminho da reunião, pensava: eu, o voluntário, o advogado, o morador com a Enquete. Preciso explicar, preciso me fazer entender.

...

Cheguei ao local. Um público de cerca de 30 pessoas, todos lideranças comunitárias, de diversas comunidades. A Spama era mais uma. Mais uma que luta, que tenta, que vai atrás. Atrás de um pedaço de terra, atrás de uma dignidade. Enfim. Eles podem falar melhor pra você, mas só sei que estou junto com eles!

Começo a entender. A reunião se trata da Reunião de Ocupações. É uma rede de trabalhadores, essa é a da Zona Oeste Noroeste.

O advogado à frente, orienta os moradores, trabalha em conjunto. Mas prefiro não me ater à essa parte, tenho muito a entender ainda...

Fato é, somos convidados a explicar porque estamos lá. Respiro. Nem eu sei direito, fui achando que era uma coisa, cheguei era outra. Sou sincera, explico da Spama, explicamos do TETO. Falamos da Enquete, as lideranças se alvoroçam positivamente. Entendem nosso trabalho, nossa missão, nossos valores. E querem nosso contato, e querem nos ver novamente, querem que a gente visite as comunidades. Respiro tensa. Foco na missão da vez. Pergunto solenemente se o advogado libera os moradores da Spama para responderem à Enquete. Era essa resposta que eu precisava. Era essa resposta que a Detecção Massiva precisava.

O advogado conhece a ONG, entende o que fazemos, e diz que é válido. Dou um sorriso largo. Agradeço imensamente. Olho para lado, compartilho a felicidade. Trocamos contatos com os moradores. Nós voltaremos!

Mas continuo esquecida.

O trabalho continua, a rotina ainda suga, e tudo me vai corroendo.
Até que sou questionada do trabalho voluntário novamente. Volto às minhas recordações, ao meu saudoso julho de 2010, acesso minhas fotos, lembro de outros tantos moradores, de outros tanto sorrisos, das crianças, das dificuldades, das chuvas e dos sóis.

E se às vezes me esqueço, hoje me lembro o porque de estar aqui.
Eles não precisam de mim. Eu que preciso deles.
Por isso me desespero, me perco, corro, me aperto, pulo, sorrio e grito: COMEÇOU NÃO PÁRA!



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¹ Sobre Habilitação Social: http://www.techo.org/paises/brasil/informate/saiba-mais-informacoes-sobre-o-trabalho-de-habilitacao-social/

² Julia Polli, voluntária do TETO

³ Evento no Facebook sobre a Detecção Massiva: https://www.facebook.com/events/1508475609388852/?fref=ts

⁴ Aida, diretora da ONG Amora. Facebook da Amora: https://www.facebook.com/amorainclusaosocial?fref=ts

⁵ Lucas Mauro, voluntário do TETO

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A seco

Me desculpe por isso. Não era nem pra eu estar aqui, mas estou. E se estou é porque escolhi assim. Mas só escolhi assim porque você me jogou de canto sem perceber. Clamando seu vão amor ao vento mais esquecendo de vivê-lo intensamente e na realidade que me era necessária. Você poetizou e tirou de mim a poesia. E hoje caminho só. Mas era pra ser assim, não era? Eu só, carregando as minhas asas quebradas. Hoje vou, pelos caminhos que fiz questão que rumar pra longe de você. Não me leve a mal. Mas já não sabia dividir eu e você dentro de mim, e isso me fez mal, e me fazendo mal te fiz mal. Juro que serei melhor. Não pra você. Pra mim mesma. E desculpa por isso, mas vou te esquecer. Porque tenho um "grito pronto pra saltar das paredes da garganta"¹. Ele é assim:

"EU NÃO VOU SEPARAR MINHAS VITÓRIAS DOS MEUS FRACASSOS, EU NÃO VOU RENUNCIAR A MIM, NENHUMA PARTE, NENHUM PEDAÇO DO MEU SER, VIBRANTE, ERRANTE, SUJO, LIVRE, QUENTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"²


¹ Trecho da música Tempo Morto - Cinco a Seco
² Trecho do poema Te olho nos olhos - Ana Carolina