segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O farei

Enquanto eu puder não fazer nada, o farei
Permanecerei imóvel, estática, intacta

É tudo tão monótono, repetitivo
Esses cânticos enfadonhos me sufocam

Preciso viver
Porque enquanto não vivo, deixo de existir

E se não existir
Não vou poder fazer nada


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Frank O. Gehry

Dança arquitetônica
Quase que irônica

Formas disformes que inconformam
Formam frases cinemáticas, sinestésicas

E eu perco os sentidos
Os misturo, os confundo

Do papel ao mundo
Da linha ao fundo

Onde tudo pede experimentação
Exaltação, excitação, sensação

Num processo sem regra, sem régua, sem trégua
É um parto intrínseco das idéias

sábado, 31 de julho de 2010

Favela

Que eu vivi essa experiência, eu não posso negar. Ficaram em meu corpo as marcas desses cinco dias, ficaram em minha alma. Que eu me apaixonei fervorosamente por pessoas diversas, e agora elas me fazem uma falta que não sei como suprir, também não nego. E reconheço a dificuldade em largar minha cidade agora, por esta ser tão perto da cidade onde minhas atuais inspirações residem. Porque agora, enfim, encontrei inspirações. Porque agora, enfim, encontrei espelhos. Se um dia procurei ídolos, hoje os tenho, os conheço, e de algum jeito eles já fazem parte de mim, e talvez eu também faça um pouco parte deles. Não esperei, nenhum segundo sequer, reconhecimento. Acho, sinceramente, que pela primeira vez me dei por inteiro. E foi isso o notável. Lutei, literalmente, por uma causa. Lutei contra mim e com eles. Contra mim lutei nas dificuldades, nas quase-desistências, nas indecisões. Com eles lutei por uma casa, por um recomeço, por algo que não sei nomear. E se passado mais cinco dias, daqueles cinco dias, eu continuo gripada, é porque não saiu de mim, não saiu de meus pensamentos, tudo que aprendi, tudo que vi, tudo que senti. Desamparo é uma palavra que tomou forma. Somos uma sociedade desamparada. E não é preciso procurar na extrema pobreza esse desamparo. Basta olhar a lua, e ter certeza que é a mesma que ilumina, de forma igualmente esplendorosa, uma favela.

favela (é)
s. f.
1. Bras. Conjunto de casebres toscos e miseráveis, geralmente em morros e onde habita gente pobre.
2. Por ext. Lugar de má fama, sítio suspeito, frequentado por desordeiros.

Essa definição me parece vazia de sentido. Mas me sinto instigada o suficiente para assumir que desconheço uma definição mais apropriada. Talvez o que não faça sentido pra mim é "gente pobre". E isso me confunde. Porque sim, são pobres, mas não entendo, não concordo, não aceito. Em alguns aspectos, relevantes ou não, não sei, eles me parecem muito mais ricos do que eu. Porque querendo ou não, tudo que aprendi, foi me tomando como comparação. Me ensinaram valores, que moeda nenhuma compra, que nenhum outro valor que eu tinha, compensa. Então fui eu, a pobre, oferecendo minha vontade, para somar com a vontade restante deles, para juntos, lutarmos. Eu contra minha pobreza, eles contra a pobreza deles. Falta sentido também em "desordeiros". Aliás, isso carrega um preconceito que hoje me envergonho de antes ter me identificado. Que ordem há de se seguir numa "sociedade desamparada"? Que parâmetro uso para julgá-los (de longe) como desordeiros? Por que sempre caio da redundante hipocrisia? E quais são as indagações que posso me permitir fazer? E quais delas posso me permitir responder?

Às favas?
Às velas?
É ela,
FAVELA.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Um teto para meu país

Nada mais me parece ter sentido, a não ser: CONSTRUIR, CONSTRUIR, CONSTRUIR. É alguma coisa, que eu não sei o que, que parece viciar. Os voluntários, as famílias, o mundo que conheci: tudo muito incrível, extraordinário e único. Essa tal ONG "Um Teto Para Meu País" é agora a parte mais intrínseca em mim. Num primeiro momento achei loucura aceitar passar 5 dias das minhas férias de julho de 2010, com pessoas desconhecidas, construindo casas para tantas outras pessoas também desconhecidas, sem tomar banho, numa favela. Mas então, aos poucos, todo preconceito foi se esvaindo. Toda a imagem implantada na minha cabeça, ruiu. É uma realidade muito pior do que parece. É uma realidade muito melhor do que parece. Assim mesmo, ambíguo. Isso porque existem necessidades mais extremas do que pensamos. Isso porque existem pessoas bem melhores do que pensamos. E dessas pessoas entenda-se voluntários e famílias. Ficamos todos juntos, vermelhos, laranjas, famílias, vizinhos, todos em prol de uma só meta: 100 casas. E se a viagem foi uma peleja, se a estrada foi estreita, tudo valeu a pena depois. Cada piloti, cada viga, cada caibro, cada tábua de piso, cada painel, cada viga mestre, cada viga secundária, cada caibro no teto, cada telha, cada cumeeira, cada prego, tudo valeu a pena, é fato. Se a mão doeu, se as costas doeram, se deu dor de cabeça, se a calça sujou, se a blusa rasgou, se perderam as luvas, se acabou o dorflex, se faltou água, se faltou boné, se fez calor de dia, se fez frio à noite, nada mais importa. Construímos tetos, reconstruímos vidas. Talvez se não fosse o terreno, talvez se não fosse a distância, talvez se não fosse o peso, talvez se não fosse a logística, talvez se não fosse o mundo, tudo teria sido mais fácil. Mais fácil? Qual a graça? O bom mesmo foi ter sido difícil, e ter sido muito mais difícil do que esperado. Porque desde o primeiro dia nos disseram a palavra chave dessa construção: SUPERAÇÃO. E quem não se superou, não esteve nesses cinco dias, ralando, sofrendo, trabalhando, chorando, gritando, amando. Porque é isso: VAMO TETO! É um grito que saiu da minha garganta tantas vezes, que mais nada agora sai dela. E pensar em segurar a lágrima na hora da inauguração das casas foi inútil, porque em contrapartida, todo trabalho para conseguir isso não o foi. E agora eu amo pessoas que convivi só cinco dias. Mas foram os cinco dias mais intensos e mais extensos que vivi. Foi de longe a melhor sensação. Força, vitória, união, superação, teto. Qualquer que seja a palavra. Fato que conquistamos cem tetos para meu país. Se alguém achou pouco, não tem o menor problema. Porque para todos os voluntários do Teto e para todas as famílias, agora é só um grito que nós podemos dar:
COMEÇOU NÃO PÁRA!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Poliana apaixonada (7)

Poliana ria-se da realidade de estar acompanhada pelo conde. Era quase irreal. Chegaram rapidamente à casa noturna. E logo na entrada Poliana sentiu-se feliz. O lugar era bastante bonito, diferente dos que ela costumava ir em sua pacata cidade. Mais feliz ainda ficou ao entrar na casa. Poliana podia sentir o quanto iria divertir-se ali. Claro que não sozinha, e não haveria companhia melhor para o momento.

Deixou-se levar pelas conversas longas, quase monólogos egoístas seus. Ninguém haveria de culpá-la, tentava ao máximo se exibir. Se era necessário ou não, impossível prever. O conde conversava ainda tímido, Poliana percebeu. Mas isso tornava-o cada vez mais encantador diante dos olhos de Poliana. A cada palavra, cada final de assunto, ela lembrava-se de ter imaginado mil coisas do conde. E ele mostrou-se perfeitamente agradável.

Quando o álcool já lhe parecia quase intragável, Poliana foi surpreendida por um beijo. Ele, ela, a música, as vozes, o mundo: silenciaram-se. Então, tudo meio insustentável, deixaram-se levar pela dança. E divertiram-se, e apaixonaram-se. Ninguém ali era conhecido de Poliana. Era justamente isso que a fascinava, porque não importava. Contemplava o fato de querer ser só ele e ela. E foram juntos por uma noite desconhecida. Noite que arrastou-se pelo amanhecer. Amanhecer que veio acompanhado de revelações. Inúmeras. Secretas. Suas. Compartilhavam agora uma história particular, só deles. E então a boca amarga de Poliana que chegou em companhia do amanhecer, deixou o conde ir embora numa despedida incompleta.

Poliana, apaixonada, insaciável, não deixaria o conde se perder pela cidade. Voltaria a procurá-lo.

Nunca existiu

Dessa vez foi diferente. Encontrei-os todos, de uma só vez. Fomos, em um momento passado, uma turma. E agora estávamos lá, novamente reunidos em uma sala. Não uma sala qualquer, estávamos numa sala que com certeza traçaria o rumo de nossas conversas. Sempre caindo no mesmo engodo enfadonho da nostalgia. E nesta noite, todos precisávamos um pouco disto. Mas antes de voltar à nostalgia, conversamos sobre o presente. Entrei numa conversa paralela, que me fez sentir estranha. Porque ele fora de minha turma também, mas nunca mantive contato, assim, direto, por mais de cinco minutos. Quem dirá tive conversa mesmo, só eu e ele. Exatamente isso, novamente isso. Eu e ele nunca existiu. Éramos nós, perdidos no meio dos outros. Foi diferente. Em determinado momento, nos lembramos da não existência de "eu e ele", e desconversamos. O que não me foi incômodo. Continuamos todos nós, juntamente com os outros, a conversar. Essa conversa estendeu-se deliciosamente por uma madrugada não-alcoólica. Chegou na nostalgia, como previsto, e foi se desenrolando suavemente, história após história. Corroborei a não existência de "eu e ele" em quaisquer dessas histórias nostálgicas. Quase lamentável. Dada uma hora qualquer, perdida da madrugada, fomos todos nós, juntamente com os outros, embora. Meu contato com ele prolongou-se por mais alguns instantes. Contato direto, meio confuso, cheio de hesitação. Um a um foi ficando pra trás no caminho até em casa. Até que, sentei-me mais longe. E rompi qualquer possível constrangimento. Tive medo, é fato. Porque encontrá-los é sempre meio confuso, sempre um ou outro se destaca, nunca ele, eu sei. Mas tive medo. Evitei. E ele se foi. Sorte que em Santos, posso sempre falar: Até logo!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Não sei quando...

Mas em algum momento eu comecei a gostar muito de certas coisas, e ao mesmo tempo odiar muito outras certas coisas. Foram tantas idas e vindas que estão, enfim, por se dissipar. Dessa vez peço licença às pessoas que ainda leem meu blog, para tirar a poética da minha escrita, e declarar como desabafo. A decisão por vir escrever sobre isso, foi o fato de que me vi adorando as pessoas da minha faculdade. E antes de começar, me peguei achando engraçado (ainda) o fato de falar faculdade. Um ano e meio já passou e ainda me alegro em saber que faço f a c u l d a d e. Mais do que isso, faço A R Q U I T E T U R A E U R B A N I S M O (delicinha!). Então... É a primeira vez que tenho essa sensação de estar adorando algo completamente novo. Não foi como entrar em uma escola nova, entrar no escoteiro, entrar na dança de rua, entrar no francês, entrar na aula de bateria... Em todos, com absoluta certeza, fiz amigos sim. Mas não sei se agora sou de fato eu, e apenas isso, não sei se fui crescendo e mudando, não sei... Construí, com certa dificuldade eu sei, algo meu. Um universo completamente novo e amplo. E as vezes em que tudo isso soou estranho, agora me parecem mínimas. Porque ainda é sim diferente estar em Santos e estar em Presidente Prudente. É diferente, e eu não sei em que. Porque chego aqui em Santos, depois de um mês passado lá e penso: estou em casa. Ao passo que, chego lá em Prudente, depois de um mero feriado, ou até férias longas aqui e penso: estou em casa. Se estou em Santos, ligo para amigos, sinceros e amados, e quero vê-los. E agora, enfim, chego em Prudente e tenho também, amigos, sinceros e amados, e quero vê-los. E quero me divertir com todos. Ora quero Santos em Prudente, Prudente em Santos. Porque são cidades completamente opostas, com pessoas completamente opostas. Seja pela praia, pelo ar, pelo plano, pelo declive, pelo sol, pelo nublado, pela música, pelo vento, pelo cheiro. Eu sei que gosto das duas. O cheiro de Santos à noite é, simplesmente, o cheiro de Santos à noite. Não sei explicar. Cheira bem, cheira festa, cheira mar, cheira sal. Me envolvo com o cheiro dessa cidade que, não sei explicar. Agora o cheiro de Prudente é outro à noite. Igualmente inexplicável. No início me causava repúdio, não gostava. Mas, não sei quando, comecei a gostar muito...