quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Morgana

Eu a amo. Faz tempo que sei disso. Faz tempo que esqueci disso também. Não me culpo, não a culpo. Culpar é um verbo que não cabe em nós. Eu tenho em mim uma parte que é ela por inteiro. Eu a fiz caber em mim, mesmo tendo ela um tamanho imensurável. Tamanho tanto que não coube fora de mim e perto de mim. Teve que se esvair, teve que partir. E foi melhor assim. Não existe quando presa, mas quando solta traz uma beleza indizível tal qual sua felicidade. Saudade só confirma nosso amor, nossa amizade. Me mantenho então sem pressa. Se ela não voltar, eu me vou. Vôo.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Revelação do Amigo Secreto

Ela daria muito mais de si que dez réis por mel coado. Daria afeto redobrado pra quem garantisse a retaguarda. Valsaria qualquer melodia com um vestido desgastado só pra sair da rotina do engomado. Tudo porque sua juventude permanece tenra mesmo ao fim do verão. Sua simplicidade se concretiza quando na primavera quer apenas ser por si só. Ao mesmo tempo em que sozinha não quer nada. Para encontrar-se ela se perde. Para perder-se ela se encontra. Às vezes senta, às vezes levanta, às vezes corre, às vezes pára. E então espera os outros, espera dos outros. Nunca perde a fala, mas também às vezes cala. Ela sintetiza ao mesmo tempo que prolixa. Ela positiva qualquer verbo, capaz até de verbear vontade. Quer e cresce ao querer. Vai e volta ao viver. De mel melado não tem nada. Ela é mel difícil de achar. Procure nas árvores, procure nos pássaros, procure nos peixes. Nunca encontrará. Ela estará na terra, no céu e no mar. Estará com você se não cansar de procurar.

À Melissa Brienda Sliominas, minha amiga secreta.
Feliz Natal!

Revelação do Amigo Secreto do Blogueiro Secreto

domingo, 12 de dezembro de 2010

A história não contada

Não tem como descrever. Não há palavras para relatar. Esse corredor agora guarda uma história que eu nunca vou conseguir contar. As paredes vão sempre rir das minhas caras e bocas e cara de pau. Até a maçaneta vai se pôr a rir no entra-não-entra da chave para abrir e fechar a porta. Porque é um abrir e fechar que te fecha fora da minha casa. E não é isso que quero. Não é isso que queremos. E você também tem um tem-não-tendo que me diverte. E deixo-te ir para não cansar. Não cansar o carinho e o sorriso que reciprocamente nos embalam. Pela primeira vez meu tempo não é negativo. Quero-te agora intensamente pelos próximos dias que temos e ponto. Eu entendo, você entende, e não achamos solução. Mas é só isso mesmo, então não tem problema. Já que ninguém sabe, eu é que não vou contar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sufoco

Eu estaria sendo egoísta. E na verdade fui. Fingindo ser incapaz de fazê-lo. Acredite, é muito difícil. Há tempos deixei de umbiguismos. Mas hoje à noite era uma certeza. Ah, a volatilidade das coisas... E então me envergonhei. Porque cansei, sinceramente, desse pensamento, desse sentimento. Ao mesmo tempo já não consigo transformar em palavras tudo que precisava lhe dizer, porque tudo que eu precisava lhe dizer, não tem como ser dito. Eu não consigo transformar em palavras, porque não existem palavras. Quando eu fico grunhindo, são as palavras que não existem, mas que fazem todo o sentido assim, desconexas mesmo. Arranjo mil desculpas, teço mil discursos. Nada bom o suficiente. Quero mesmo dizer para você ir, mas dizer sem precisar pensar que te queria aqui. Porque agora que já perdi as palavras, seria um bom momento de permanecer quieta. Me sufoco, mas calo-me.

Só assim!

É um aceitar-te sem limites. É entender que a grama verde toca os pés pelo simples fato de eu me deixar pisar-lhe. É saber que o formato do meu rosto é oval, que minha testa é grande e que minha boca quase sempre sorri triste. É poder sentir as dores mais insustentáveis e extrair delas a poesia que inflama. É calar-me diante do absurdo de tua beleza inalcançável. É tanger a delicada exclusão da qual tu te incluis. É morrer por esperar os grunhidos que me escapam ao querer-te. É romper as delicadas expressões que se firmam para o infinito. É apertar, morder, puxar, querer, tentar, sofrer. É um aceitar-te sem fronteiras. É deixar-te viver. Porque só assim eu vivo também.

domingo, 21 de novembro de 2010

Crise poética.

Que merda.

Não consigo juntar nem duas palavras.

Porra.

domingo, 7 de novembro de 2010

Amargo

Me cansei da poesia. A poesia me cansou. Me cansei das palavras. As palavras me cansaram. O que sempre fiz de melhor, tornou-se algo que agora me faz mal. O fato de escrever de forma poética as coisas que me aconteciam, me fizeram amar minhas histórias. Independente do final que elas tenham tomado, ou de todo real desenrolar dos fatos. Porque então a poesia e as palavras transcendiam e pairavam e dançavam rodopiantes tecendo uma bela cena. Onde cada detalhe se cumpria com primazia. E então toda minha vida parecia aquela pausa na respiração, aquela fala que lhe falta deixando a boca aberta. Me tornando então uma poetisa enrustida que erguia o copo ao ar na alegria de ser une bonne vivent. Mas será que era? Será que fui? Continuarei sendo? Amargo. É isso que sinto agora.