sábado, 23 de janeiro de 2010

Um dia ele me descobriu pelo cheiro

Foi até engraçado, entrei em seu quarto sem avisar. Ele estava no banheiro tomando um banho. Deixei a luz apagada, mas não decidia onde me esconder. Acabei andando de um lado para o outro do quarto. Decidi que ficaria na porta mesmo. A porta do banheiro não abria para a parte do quarto que eu estava. E fiquei ali, respirando lento. Ele saiu, cantarolando alguma música que não me lembro bem, e parou, de andar e de cantarolar. Respirou rápido, como um animal selvagem. Vi pela sombra que olhou para os lados. Deu um passo, e olhou para o canto onde eu estava. Na penumbra pela luz que vinha do banheiro vi seu sorriso ao me ver, e sua felicidade não contida na voz que dizia: Senti seu cheiro. Ainda molhado me abraçou. Mas minha memória desse dia se dissipa nesse momento: O momento em que ele me descobriu pelo cheiro.

Descondicione-se! Desembale-se! Tire enfim suas amarras entranhadas. Ninguém além de você é capaz de te prender de tal maneira. Quebrar a rotina é pouco. Jogue logo às traças tudo ao seu redor. Deixe que definhe e que se esqueça e se embarace nas próprias lembranças. Certas coisas não merecem tanto prezo, tanta atenção. A dificuldade maior é enxergar, assumir que envelheceu. Passou sim, mediocremente, da validade. E se é velho: jogue fora. Deixe seu baú livre de velharias. Abandone se não tem mais o que extrair. Não se deixe sufocar pelos outros. Simplesmente vá embora.

Um reconhecimento, uma mudança

Ah, talvez eu não seja do tipo exemplar. Mas sou alguém que se esforça. Não acreditava que eu era assim, sempre tentei ser. Hoje descobri que de fato sou. De um jeito quase irritante, e bastante perfeccionista. Talvez na maioria das vezes não me falte vontade, mas sim tempo. Tenho muitos problemas com esse tal de tempo. Não sei me planejar pra fazer ele funcionar comigo, e parece que acabo me dividindo em tempos errados, e aproveitando muito pouco de muito. Hoje também descobri que isso já não me completa. Não quero mais ser um pouquinho pra muita gente. Quero ser muito pra pouca gente. Tá, já reconheci... Um passo dado.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Toda surdez será castigada

Já dizia Nação Zumbi... Até que ponto vai o absurdo? Um filho que mais parece um surdo, com um fone de ouvido tocando música no último volume para não ouvir o pai. O pai que ainda assim insiste em gritar para ver se o filho ouve. Geração de surdos... Mas fazer o que? Não se nasce sabendo ouvir, pode acreditar que não. Como pode-se ignorar tanta coisa? Como pode-se deixar enclausurar numa bolha sem informação? Desarmem-se! Calem-se! Parem para ouvir o mundo, apesar dele já não pedir ajuda ainda vale à pena parar pra escutar. E espero sim: que toda surdez seja castigada...

domingo, 17 de janeiro de 2010

R.I.P.

(Enfim, respirei fundo e decidi postar esse texto. Um dos poucos escritos a punho. Quis registrar, para não deixar que se perca nas folhas de um caderno velho...)



É como se ele não existisse, e nunca o tivesse sido além de minha imaginação, por vezes nem na imaginação... As lembranças são vagas. Seu tato me parece distante. Mas ainda assim tudo tem um quê de amargo. Falei tanto, pensei tão pouco, transformei em poesia. E logo dissipei algo que talvez se tornaria lágrimas. Estas foram sim derramadas, mas eram poucas: logo cessaram. Em uma semana, menos até, arranquei-o de minha vida. Pensando friamente: matei uma parte dele em mim. Resta ainda um quase nada às vezes muito intenso do que eu era e fui só pra ele. Talvez ele nem saiba disso, e nunca vá saber se não quiser, mas uma parte que era minha nascera dele. Se deixarei morrer? Por ora não tenho a resposta. É assim, uma carta impessoal. Acho que na verdade é de mim para parte dele em mim. Para que eu consiga gastar e definhar este pouco que resta. Fora uma morte lenta, mas nada dolorosa, confesso. É apenas uma questão de escolha...

05/01/2010
* Pétilin Assis de Souza
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sábado, 16 de janeiro de 2010

Poliana apaixonada (5)

Poliana depois de desapaixonar-se por um, apaixonou-se por tantos outros. E as paixões a levaram às mentiras, as mentiras a levaram ao caos. Tudo muito caótico e impreciso. Poliana precisava livrar-se desses grilhões. Viajar, era sempre uma solução. Abandonou então sua pequena cidade, e partiu enfim ao encontro de seu noivo.

Tentou.

Mas era sua essência: paixão. Não pôde mudar. Negar essa verdade tornara-se impossível. Enfim perdeu o controle. Resolveu descabelar-se. Mas sempre por pouco tempo: apaixonada sempre, paciente nunca. Passada uma semana, já era Poliana novamente. Aquela: Poliana apaixonada. E nada de mentiras, mas muito de caos. O noivo, satisfeito com as próprias loucuras, afastou-se e logo sumiu. Poliana mentirosa e orgulhosa resolveu enfim recomeçar.

Mas como? Se o então conde da Germânia não lhe saía da cabeça? Como se seu nome insistia em aparecer em jornais? Por quê? Não era tudo apenas uma idéia? Por que não esquecer? Poliana mal procurou a resposta, mas voltou a procurar o conde. E voltou à sua cidade. E voltou ao seu lugar no trem. Como sempre malas feitas às pressas. A cidade grande dessa vez não mudara. Mas Poliana resolveu variar: encontrou-se com outro conhecido, em outra parte da cidade. Talvez dessa vez não ficasse tão perdida. Soube então que o conde descobriu sua procura, e passou a esperá-la na estação. Ansiosa, mas nunca nervosa, Poliana arrumou-se, como se fosse sua única chance e saiu.

Poliana foi, enfim, encontrar o conde da Germânia.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Cuidar de mim

"E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."
- Clarice Lispector

Por quê? Como? É assim que eu ando, taxando interrogações. Não aos outros. Extremamente introspectiva e cansada de julgar. Sinto uma necessidade, temo que efêmera, de cuidar de mim. Não sei se egoísta ou não, mas quero meu bem. E que isso não seja entendido como uma forma de me destacar, brilhar ou enfim. Mas se o fizerem, pouco me importa. Temporariamente egocêntrica, mas de forma intensa. Se incomodar, não tenha pressa, dou a certeza de que passa, isso eu não temo.

Peço desculpas pelas pausas. Mas meus pensamentos estão vindo fragmentados.

Não sei dizer ao certo onde foi que terminou minha vontade do outro e se iniciou a vontade plena por mim. A vontade de viver sem compartilhar. Talvez as discussões em bar não tenham sido errôneas. Já que concordo que felicidade plena (dado que ela existe, não discutirei isso - por ora), só é real quando compartilhada. Mas ando (de forma inversa) plenamente feliz sem compartilhar tais felicidades. Sentimentos unicamente meus, sensações exclusivamente minhas, e pensamentos, redundantemente, meus também.

Se é sempre assim, não sei e também não acho. É só que agora isso me parece muito mais em destaque. Essa coisa de ser meu. Mas sem o sentimento de possessão, já que hora ou outra divido com o mundo minhas experiências (visto até que estou aqui, escrevendo - tudo bem que é preciso ter participado de tudo e saber ler entrelinhas...).

O ponto é só que preciso escrever como numa forma de registrar o início do meu egocentrismo descomedido. Para que não me venham com: Por quê? Como? - Já disse que não o estou fazendo com os outros, justamente para não fazerem comigo.

Se interessa, repito: Passa. Mas não me apresse.